{"id":618,"date":"2021-01-17T06:34:21","date_gmt":"2021-01-17T09:34:21","guid":{"rendered":"http:\/\/revistabahianow.com.br\/?p=618"},"modified":"2021-01-17T06:34:21","modified_gmt":"2021-01-17T09:34:21","slug":"quantidade-de-processos-trabalhistas-pode-ter-sido-uma-das-causas-da-ford-deixar-o-brasil-em-busca-de-outros-paises-veja-detalhes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistabahianow.com.br\/?p=618","title":{"rendered":"Quantidade de processos trabalhistas pode ter sido uma das causas da FORD deixar o Brasil em busca de outros pa\u00edses. Veja detalhes"},"content":{"rendered":"<p>A montadora norte-americana Ford, que anunciou nesta semana que encerrar\u00e1 a produ\u00e7\u00e3o de ve\u00edculos no Brasil, foi alvo de 4.930 processos trabalhistas entre 2014 e 2021. O valor total das causas \u00e9 de R$ 897,88 milh\u00f5es. Os dados foram levantados a pedido da <strong>ConJur<\/strong> pela <em>Data Lawyer Insights,<\/em>\u00a0empresa de jurimetria e intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n<p>O n\u00famero inclui a\u00e7\u00f5es ativas, arquivadas e suspensas. Quando considerados apenas os processos ativos, s\u00e3o 3.534 a\u00e7\u00f5es na Justi\u00e7a do Trabalho, com causas no valor total de R$\u00a0694,86 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Dentro do mesmo per\u00edodo, levando em conta apenas as decis\u00f5es de primeiro grau, o total das condena\u00e7\u00f5es contra a Ford somam\u00a0R$ 177,5 milh\u00f5es, enquanto os acordos somam R$ 15,4 milh\u00f5es. O\u00a0valor m\u00e9dio por condena\u00e7\u00e3o \u00e9 de R$ 67 mil.<\/p>\n<p>Do total de processos, 43,98% foram julgados parcialmente procedentes; 3,04% procedentes; 15,76% improcedentes; em 7,75% se chegou a um acordo; e 21,24% ainda est\u00e3o pendentes de julgamento. Nos desfechos n\u00e3o foram consideradas as aus\u00eancias de pressupostos, desist\u00eancias e extin\u00e7\u00f5es da execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A maioria\u00a0das a\u00e7\u00f5es foi\u00a0movida\u00a0em S\u00e3o Paulo e na Bahia, estados onde se localizam\u00a0as maiores\u00a0f\u00e1bricas da Ford \u2014 em Taubat\u00e9 e Cama\u00e7ari, respectivamente. A unidade de S\u00e3o Bernardo (SP) foi fechada em 2019. E a empresa ainda produzia os jipes Troller, em Horizonte (CE).<\/p>\n<p>A pesquisa da <em>Data Lawyer<\/em> foi feita com base em publica\u00e7\u00f5es da Justi\u00e7a do Trabalho, do mesmo modo em que \u00e9 feito o levantamento do <a href=\"https:\/\/www.conjur.com.br\/secoes\/blogs\/termometro-covid-19\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Term\u00f4metro Covid-19<\/strong><\/a>, parceria entre a startup, o <em>Fintedlab<\/em> e a <strong>ConJur<\/strong> para monitorar as a\u00e7\u00f5es ajuizadas por causa da epidemia do novo coronav\u00edrus.<\/p>\n<p><strong>Grande n\u00famero de processos<\/strong><br \/>\nA Ford dava sinais de que j\u00e1 n\u00e3o se interessava tanto pelo Brasil h\u00e1 pelo menos seis anos, quando a empresa interrompeu os ciclos de investimentos no pa\u00eds. Dois anos atr\u00e1s, houve mais um epis\u00f3dio significativo: o fechamento da f\u00e1brica no ABC paulista. A epidemira de Covid-19 adicionou novos problemas, entre eles a desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial.<\/p>\n<p>O volume excessivo de processos trabalhistas seria mais um dos fatores a contribuir para esse cen\u00e1rio. Voltou a circular a estimativa\u00a0de que o n\u00famero de processos abertos no Brasil, sozinho, \u00e9 maior do que o de a\u00e7\u00f5es movidas contra a Ford em todos os outros pa\u00edses do mundo juntos (a informa\u00e7\u00e3o consta na coluna do jornalista Amauri Segalla, no Estado de Minas, e foi reproduzida nas redes sociais).<\/p>\n<p>A <strong>ConJur<\/strong> tentou falar com a Ford para confirmar esse dado, mas a assessoria de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o atendeu \u00e0s liga\u00e7\u00f5es da reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para <strong>Ricardo Calcini<\/strong>, professor de Direito do Trabalho da FMU, que assina na <strong>ConJur<\/strong> a coluna <strong>Pr\u00e1tica Trabalhista,<\/strong>\u00a0\u00e9 prov\u00e1vel que a informa\u00e7\u00e3o esteja correta, j\u00e1 que, segundo ele, no Brasil, de fato, litiga-se muito. O professor n\u00e3o acredita, no entanto, que o fator tenha sido decisivo para que a Ford deixasse o pa\u00eds, levando em conta que ela e outras montadoras est\u00e3o instaladas aqui h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p>&#8220;As faculdades de Direito no Brasil, regra geral, preparam os estudantes ao lit\u00edgio. Isso tornou o pa\u00eds um recordista de a\u00e7\u00f5es judiciais, na medida em que se valoriza mais a decis\u00e3o judicial exarada pelo Estado, em detrimento de meios alternativos de solu\u00e7\u00e3o de conflito&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p>O professor tamb\u00e9m destaca que &#8220;o acesso ao Poder Judici\u00e1rio brasileiro \u00e9 bastante amplo e com custo muito baixo, sendo que em diversos casos o custo \u00e9 inexistente&#8221;. &#8220;Isso fomenta uma maior judicializa\u00e7\u00e3o, de modo que \u00e9 dif\u00edcil, em tempo e modo, a pacifica\u00e7\u00e3o das controv\u00e9rsias pelos tribunais superiores, cuja aus\u00eancia de uma uniformiza\u00e7\u00e3o do entendimento jurisprudencial possibilita que cada magistrado decida o lit\u00edgio de acordo com seu pr\u00f3prio convencimento.&#8221;<\/p>\n<p>Calcini lembra, por fim, o impacto da <a href=\"https:\/\/www.conjur.com.br\/2020-dez-18\/supremo-afasta-tr-correcao-dividas-trabalhistas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">decis\u00e3o do Supremo Tribunal Federal<\/a>\u00a0que determinou que a corre\u00e7\u00e3o tanto dos dep\u00f3sitos recursais quanto\u00a0da d\u00edvida trabalhista devem ser feitos pelo \u00cdndice Nacional de Pre\u00e7os ao Consumidor Amplo Especial (IPCA-E) na fase pr\u00e9-judicial, e pela Selic, a partir da cita\u00e7\u00e3o. A decis\u00e3o, para ele, \u00e9 favor\u00e1vel \u00e0s empresas. No julgado, o STF juntou uma a\u00e7\u00e3o movida pela Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Magistrados da Justi\u00e7a do Trabalho (Anamatra) e outras de entidades empresariais.<\/p>\n<p>&#8220;Quanto \u00e0s decis\u00f5es do STF em mat\u00e9ria trabalhista, nos \u00faltimos anos estamos acompanhando desfechos favor\u00e1veis \u00e0s empresas. Exemplo mais recente disso foi a decis\u00e3o proferida na \u00faltima sess\u00e3o do Supremo, em que foi redefinida a nova forma de atualiza\u00e7\u00e3o dos d\u00e9bitos trabalhistas que, para muitos estudiosos, acabou extirpando a aplica\u00e7\u00e3o de juros de 1% ao m\u00eas por for\u00e7a da ado\u00e7\u00e3o da taxa Selic. A Selic j\u00e1 compreende os juros de mora.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Lit\u00edgios trabalhistas no mundo<\/strong><br \/>\nA perspectiva \u00e9 que o n\u00famero de processos aumente bastante ap\u00f3s o an\u00fancio da montadora. Conforme explicou \u00e0 <strong>ConJur<\/strong> o juiz\u00a0<strong>Guilherme Guimar\u00e3es Feliciano<\/strong>, titular da 1\u00aa Vara do Trabalho de Taubat\u00e9\u00a0\u2014\u00a0onde a empresa mantinha sua planta em S\u00e3o Paulo \u2014,\u00a0haver\u00e1 830 demiss\u00f5es diretas. Isso, diz, gerar\u00e1 novas\u00a0a\u00e7\u00f5es, caso n\u00e3o seja aberto um processo coletivo. Feliciano tamb\u00e9m \u00e9 professor de Direito do Trabalho e Seguridade Social na USP.<\/p>\n<p>&#8220;Houve uma reuni\u00e3o do governo do estado com a Prefeitura. Teremos 830 demiss\u00f5es diretas; os empregos indiretos perdidos ser\u00e3o entre 1,5 mil e 2 mil. Se considerarmos os trabalhos que existiam no entorno da planta, que supriam a Ford e seus trabalhadores, as demiss\u00f5es chegam a 5 mil&#8221;, conta.<\/p>\n<p>O magistrado, no entanto, afirma que \u00e9 &#8220;esdr\u00faxula&#8221; a compara\u00e7\u00e3o entre o n\u00famero de processos movidos no Brasil e os ajuizados no restante do mundo.<\/p>\n<p>&#8220;No plano internacional, a compara\u00e7\u00e3o \u00e9 esdr\u00faxula. Exatamente por causa da varia\u00e7\u00e3o que h\u00e1 entre os sistemas de Justi\u00e7a. No caso norte-americano, por exemplo, h\u00e1 uma ag\u00eancia administrativa que geralmente resolve esse conflito, principalmente se h\u00e1 demanda coletiva, antes do caso chegar no Judici\u00e1rio&#8221;, diz, em refer\u00eancia \u00e0 National Labour Relations Board (NLRB).<\/p>\n<p>&#8220;No contexto norte-americano, at\u00e9 por haver esse filtro anterior no plano administrativo, os processos s\u00e3o comparativamente menores. Em outros pa\u00edses, como a Alemanha, a Justi\u00e7a do Trabalho \u00e9 quase id\u00eantica \u00e0 nossa, inclusive com uma corte superior para quest\u00f5es trabalhistas. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 diferen\u00e7as: a atividade sindical alem\u00e3 \u00e9 muito mais efetiva que no Brasil, sem falar da quest\u00e3o populacional, j\u00e1 que o Brasil \u00e9 muito maior nesse sentido&#8221;, prossegue.<\/p>\n<p>O juiz lembra, por fim, que o n\u00famero de processos contra montadoras sempre foi alto no pa\u00eds. No F\u00f3rum Trabalhista de Taubat\u00e9, conta, h\u00e1 229 processos contra a Ford em fase de conhecimento; 38 em fase de liquida\u00e7\u00e3o; e 13 na fase de execu\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 foram quitados ou garantidos. Contra a Volkswagen, h\u00e1 ainda mais a\u00e7\u00f5es: 587 em conhecimento; 229 na liquida\u00e7\u00e3o; e 143 na execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel comparar o Brasil e o restante do mundo porque sequer \u00e9 poss\u00edvel catalogar os processos em outros pa\u00edses. H\u00e1 locais\u00a0sem Justi\u00e7a do Trabalho destacada, inclusive&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Ot\u00e1vio Luiz Rodrigues Jr<\/strong>, professor da USP, conselheiro do Conselho Nacional do Minist\u00e9rio P\u00fablico, que tamb\u00e9m assina na <strong>ConJur<\/strong> a coluna <a href=\"https:\/\/www.conjur.com.br\/secoes\/colunas\/direito-comparado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Direito Comparado<\/em><\/a>, concorda com as afirma\u00e7\u00f5es do juiz de SP.<\/p>\n<p>Segundo explica, h\u00e1 tr\u00eas classes de pa\u00edses que seguem modelos diferentes no que diz respeito \u00e0 Justi\u00e7a do Trabalho: aqueles\u00a0que seguem os par\u00e2metros da\u00a0Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho, o que basicamente impossibilita as demiss\u00f5es injustificadas; os pa\u00edses que n\u00e3o t\u00eam direito trabalhista; e na\u00e7\u00f5es como o Brasil, que permitem as demiss\u00f5es imotivadas ao mesmo tempo em que t\u00eam uma Justi\u00e7a do Trabalho forte.<\/p>\n<p>&#8220;Sou refrat\u00e1rio a esse tipo de argumento de que litigamos muito e, por isso, as empresas saem. Os modelos trabalhistas s\u00e3o muito diferentes. \u00c9 um argumento t\u00e3o fr\u00e1gil\u00a0que, se fosse universaliz\u00e1vel, a Ford n\u00e3o teria vindo ao Brasil. N\u00e3o teria\u00a0ficado 100 anos no Brasil&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 pa\u00edses do sudeste asi\u00e1tico em que voc\u00ea sequer pode falar em baixa litigiosidade, porque n\u00e3o existe Justi\u00e7a do Trabalho neles. N\u00e3o d\u00e1 para comparar o Brasil e esses locais. Esse tipo de compara\u00e7\u00e3o n\u00e3o serve, em especial depois da Reforma Trabalhista, que limitou muito os processos&#8221;, conclui.<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-619\" src=\"http:\/\/revistabahianow.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/C1337CD0-779C-4D07-BF4B-0A66EB673C5A-153x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"153\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/revistabahianow.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/C1337CD0-779C-4D07-BF4B-0A66EB673C5A-153x300.jpeg 153w, https:\/\/revistabahianow.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/C1337CD0-779C-4D07-BF4B-0A66EB673C5A-522x1024.jpeg 522w, https:\/\/revistabahianow.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/C1337CD0-779C-4D07-BF4B-0A66EB673C5A-768x1507.jpeg 768w, https:\/\/revistabahianow.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/C1337CD0-779C-4D07-BF4B-0A66EB673C5A-783x1536.jpeg 783w, https:\/\/revistabahianow.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/C1337CD0-779C-4D07-BF4B-0A66EB673C5A.jpeg 828w\" sizes=\"(max-width: 153px) 100vw, 153px\" \/><\/p>\n<p>fonte: site conjur<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A montadora norte-americana Ford, que anunciou nesta semana que encerrar\u00e1 a produ\u00e7\u00e3o de ve\u00edculos no Brasil, foi alvo de 4.930 processos trabalhistas entre 2014 e 2021. 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